Mito é uma forma de narrar um fato relacionado a cultura. O mito procura explicar a realidade,os fenômenos naturais, as origens do mundo e do homem por meio de deuses, semi-deuses e heróis.
O mito não se reduz a simples lendas, mas faz parte da vida humana desde a sua origem e ainda persiste no nosso cotidiano, expressos por meio de crenças, temores e desejos que nos mobilizam. No entanto, hoje os mitos não emergem com a mesma força com que impulsionavam nas sociedades tribais, porque o exercício da crítica racional nos permite legitimá-los ou rejeitá-los.
Com a evolução da sociedade humana, pelo pensamento reflexivo e pelo progresso da ciência o mito passa a ser exercido por poetas, artistas definido como uma macro-metáfora.
Mito Origem da Noite
Depois de criado o mundo não havia noite para o índio Maué dormir.
Então Uánhã, sabendo que a surucucu era dona da noite, e, também,a jararaca, a aranha, o lacrau e a centopéia, disse a sua gente:
- Vou buscar a noite para vocês.
E foi, levando consigo arcos e flechas. Ao chegar na casa da surucucu, lhe disse:
- Queria comprar a noite. Aqui tens meu arco e estas flechas.
A surucucu lhe respondeu:
-Ora, filho, para que é que eu quero o teu arco e estas flechas, se não tenho mãos ? Não. Não quero o teu arco e tuas flechas.
Uánhã foi buscar, por isso, uma liga para as pernas. E, voltando à casa da surucucu lhe disse:
- Aqui está uma liga para amarrares na tua perna.
- Na perna não pode ser, meu filho. Amarra no meu rabo , por que eu não posso me levantar.
Uánhã amarrou a liga no rabo da surucucu.
A surucucu porém não lhe entregou a noite, Uánhã voltou no outro dia trazendo venenos.
E disse a surucucu:
- Vim buscar a noite. Quero levar a noite comigo.Trouxe venenos comigo.
- Ah! Trouxe venenos? Então eu lhe entrego a noite, porque de veneno é que eu preciso.
Arrumou a noite ( a primeira noite) dentro de uma cestinha e a entregou a Uánhã.
Os companheiros de Uánhã assim, que o viram sair da casa da surucucu, correram a encontrá-lo no caminho.
- Então, é verdade que levas a noite contigo?
Uánhã respondeu que sim,mas que a surucucu lhe recomendara que só abrisse a cestinha em casa.
Mas os companheiros de Uánhã tanto insistiram em abrir a cestinha, que, afinal, acabaram conseguindo.
Da cestinha saiu a primeira noite.
Os companheiros de Uhánhã espantados e com medo, puseram-se a gritar, fugindo, depois, as cegas.
E Uánhã também se pôs a gritar: Tragam a lua! Tragam a lua!
Porque Uánhã tinha ficado só dentro da noite.
Então os parentes da surucucu - jararaca, o lacrau, a centopéia - que já havia dividido o veneno entre si , cercaram Uánhã, e a jararaca irmã da surucucu, picou no dedo do pé.
Uánhã sentiu dor, conheceu que a jararaca o picara e disse:
- Sei quem tu és. Sei quem tu és. Meus companheiros a matarão.
Todas as outras cobras foram experimentar seu veneno em Uánhã. Só a cutimbóia não, porque, sendo muito brava, os parentes da surucucu não lhe deram nenhum veneno: Só assim não morderia todos os maué.
Uánhã morreu da picada da jararaca, mas, como havia feito um trato com amigo, este, o encontrando-o morto, fez um banho de folhas mágicas e com ele banhou o cadáver.
Uánhã ressuscitou, e, pondo-se a caminho, foi buscar na casa da surucucu a noite, a grande noite , porque a outra havia sido muito curta.
E entregou mais veneno para surucucu.
A surucucu para tornar a noite grande, misturou jenipapo com todas as imundícies que encontrou .
A grande noite foi feita com imundícies.
É por isso que, à noite, sentimos tantas dores no corpo, ficamos com a boca amarga e fedorenta.
Essa foi a noite que Uánhã arrumou para os Maué.